Ácido fluossilícico: produção, aplicação nas ETAs e como manter a fluoretação durante a crise de 2026

O índice CPO-D em crianças de 12 anos — que mede dentes cariados, perdidos e obturados — era de 6,7 no Brasil em 1986. Em 2023, caiu para 1,68: uma redução de 75% em menos de quatro décadas, segundo as Pesquisas Nacionais de Saúde Bucal do Ministério da Saúde (SB Brasil 2010; SB Brasil 2023). Esse resultado resume mais de sete décadas de política pública iniciada em Baixo Guandu, no Espírito Santo, em 1953, quando o Brasil realizou a primeira experiência de fluoretação da água de abastecimento público do país. A queda aconteceu pela combinação entre água fluoretada e creme dental fluoretado, e alcança a população independentemente de renda ou de acesso a serviços odontológicos.

Em 2026, esse resultado depende de um insumo que teve sua produção drasticamente reduzida nacionalmente.


O que está acontecendo

O ácido fluossilícico é o insumo mais utilizado na fluoretação da água de abastecimento. Ele não é fabricado como produto principal: surge como subproduto da cadeia de fertilizantes fosfatados, e quando essa cadeia é interrompida, o subproduto desaparece junto.

Foi o que aconteceu. A alta do enxofre, matéria-prima crítica do ácido sulfúrico que alimenta a cadeia fosfatada, combinada ao desarranjo logístico provocado pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, levou a produção nacional à paralisação em 2026. O mercado interno ficou sem oferta. A alternativa é a importação, tecnicamente viável, mas mais demorada e cara: o ácido fluossilícico é corrosivo, exige documentação específica, transporte adequado e armazenamento controlado.

Em julho de 2026, as associações do setor apresentaram ao Ministério da Saúde um pedido de suspensão temporária da obrigatoriedade da fluoretação por 90 dias nos sistemas afetados, enquanto buscam estruturar o abastecimento via importação. O pedido está em análise. A Lei Federal nº 6.050/1974, que torna a medida obrigatória em sistemas dotados de estação de tratamento, permanece vigente.

O pedido tem justificativa operacional legítima: as companhias de saneamento precisam de fôlego para se reorganizar diante da nova cadeia de suprimentos. Ainda assim, é um ponto de atenção. Uma interrupção temporária não pode virar retrocesso em uma política que levou décadas para derrubar a cárie no país. O respiro do setor e a proteção da população precisam caminhar juntos.


Como o ácido fluossilícico é produzido

O ácido fluossilícico (H₂SiF₆) não sai de uma linha de produção dedicada. Ele é capturado como subproduto do processo de fabricação de ácido fosfórico, etapa central na produção de fertilizantes fosfatados.

O processo começa na rocha fosfática. Quando a rocha é tratada com ácido sulfúrico, a reação produz ácido fosfórico para os fertilizantes e libera, simultaneamente, gás de tetrafluoreto de silício (SiF₄). Esse gás é então capturado nos lavadores da planta, absorvido em água e convertido em ácido fluossilícico. Sem esse mecanismo de captura — desenvolvido originalmente para evitar a emissão de um poluente atmosférico —, o insumo da fluoretação simplesmente não existiria.

Essa origem define a vulnerabilidade estrutural do produto. Não há como produzir ácido fluossilícico de forma independente da cadeia de fosfatados. Quando o enxofre — matéria-prima do ácido sulfúrico que alimenta toda a cadeia — encarece ou o escoamento global é interrompido, o subproduto desaparece junto. Não é uma decisão comercial. É uma consequência física do processo.

O outro produto fluoretante utilizado nas ETAs brasileiras é o fluorsilicato de sódio (Na₂SiF₆), forma sólida proveniente da mesma cadeia fosfática. Conforme o Guia de Recomendações para o Uso de Fluoretos no Brasil do Ministério da Saúde, esses são os dois produtos mais empregados no país. Ambos têm origem na mesma indústria — e ambos foram afetados pela crise de 2026.


Como o fluoreto é aplicado nas ETAs

A fluoretação acontece na etapa final do tratamento da água, após coagulação, floculação, sedimentação, filtração e desinfecção. O fluoreto é injetado diretamente na água já tratada, antes de entrar na rede de distribuição.

Equipamentos e estrutura

O ácido fluossilícico é líquido e altamente corrosivo (pH próximo de 1,2 em concentração comercial). A dosagem é feita por bombas dosadoras — peristálticas ou de diafragma — calibradas para injeção proporcional ao fluxo de água tratada. Os tanques de armazenamento precisam ser de material resistente ao ácido (polietileno de alta densidade ou fibra de vidro) e devem ter contenção secundária. O manuseio exige EPI adequado: luvas nitrílicas de cano longo, óculos de proteção e avental resistente a ácidos.

Sistemas que utilizam fluorsilicato de sódio operam com dissolvedores para preparar a solução antes da dosagem. O equipamento difere, e a conversão entre produtos exige adaptação da instalação e recalibração da dosagem.

Dosagem e controle

A faixa operacional de íon fluoreto é de 0,6 a 0,8 mg/L, dentro do valor máximo de 1,5 mg/L definido pela Portaria GM/MS nº 888/2021. A dosagem não é fixa: varia com o volume tratado, com a temperatura da água e com o nível de fluoreto natural já presente na fonte. O ajuste contínuo da bomba dosadora faz parte do procedimento operacional padrão.

O controle da fluoretação opera em dois níveis: o autocontrole da própria ETA, com monitoramento na saída do tratamento, e o heterocontrole dos órgãos de vigilância sanitária, por meio de coletas em pontos da rede de distribuição.

Quando o estoque é limitado

Em situação de escassez, a calibração passa a ser gestão de risco. Cada litro de insumo disponível precisa trabalhar dentro da faixa exata: abaixo de 0,6 mg/L de íon fluoreto, a ETA opera fora do padrão regulatório; acima de 1,5 mg/L, gera não conformidade por excesso. Equipamento descalibrado ou procedimento impreciso compromete não apenas a eficácia da fluoretação, mas a duração do estoque disponível.


O que muda para quem opera

A potabilidade da água não está em jogo. A fluoretação é uma etapa de saúde bucal, não um critério de potabilidade. A água tratada permanece própria para consumo mesmo sem a adição do fluoreto. O efeito de uma interrupção prolongada é a perda gradual da proteção contra cárie, mais relevante para a parcela da população que depende exclusivamente da água fluoretada como fonte de flúor.

Do ponto de vista do custo operacional, a fluoretação pesa pouco. Em sistemas que atendem 30 mil habitantes ou mais, corresponde a algo entre 0,2% e 0,6% do custo total do tratamento, conforme análise comparativa em sete portes populacionais (Belotti & Frazão, 2021). O retorno econômico é favorável na maioria dos cenários estudados, com economia significativa em tratamentos odontológicos evitados. A interrupção não elimina o custo, desloca-o para o sistema de saúde.

O ponto de atenção imediato para quem opera uma ETA é regulatório. Reduzir ou interromper a dosagem sem autorização expressa do órgão competente gera não conformidade com a Portaria GM/MS nº 888/2021, independentemente do pedido de suspensão ainda em análise. A faixa de íon fluoreto de 0,6 a 0,8 mg/L, dentro do valor máximo permitido de 1,5 mg/L, precisa ser mantida enquanto houver insumo disponível. O controle de dosagem, nesse contexto, deixa de ser rotina e passa a ser gestão de risco.


Como preservar a continuidade

A escassez tem origem na cadeia internacional de fosfatados, fora do alcance de qualquer operação individual. O que está ao alcance é o abastecimento. O próprio Guia de Recomendações para o Uso de Fluoretos no Brasil, do Ministério da Saúde, orienta que riscos de interrupção por falta de produto devem ser minimizados por meio de sistemas adequados de aquisição e estocagem. O que isso significa na prática: acesso a um fornecedor com produto disponível, calibração precisa da dosagem para não desperdiçar estoque e capacidade logística para receber e manejar o ácido com segurança.

A GR Water Solutions estruturou uma cadeia global de suprimento de flúor, com produtos nacionais e importados, para atender seus clientes e manter o abastecimento das operações de saneamento durante a crise.

Com 20% do market share na distribuição de flúor no Brasil, a GR formalizou parcerias com produtores internacionais que asseguram disponibilidade, previsibilidade e qualidade do insumo. Os navios já estão a caminho do Brasil e os primeiros abastecimentos via importação estão programados para agosto. Se necessário, a GR tem capacidade para estruturar uma solução para toda a demanda nacional do insumo.

A empresa atende as maiores operações de saneamento do país em 16 estados, presta suporte técnico de dosagem e controle e mantém capacidade de entrega neste período de instabilidade da cadeia. Para operações que precisam garantir a continuidade da fluoretação, a equipe da GR está disponível para uma conversa direta sobre fornecimento e condições.

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